À margem

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Trabalho de deuses

Conto

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Emmanuel Gonzaga
jun 25, 2026
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O Diabo entrou às três e trinta da manhã no Boteco do Chapadão.

A freguesia minguava e o dono em pessoa roncava atrás do balcão com a cara metida no peito peludo. Na presença do anjo caído, as mesas vibraram e foram ao chão, os bancos se esmigalharam e viraram pó. Ele tomou a forma dum homem de negócios: cabelos besuntados de pomada, terno preto e a gravata com cores de fogo.

Sentou-se ao lado da única figura que se distinguia naquele mundinho apagado, uma mulher de vestido anil cintilante. Era loira, as pontas dos cabelos pintadas de azul e rosa; tinha a pele clara como a duma ninfa grega. Não usava calçados; balançava os pés feito criança à beira de piscina.

Ela bebera leite e deixara o copo de lado. Esperava Chapadão acordar para a próxima dose. Enquanto isso, cortava amendoins com uma faca de prata e dispunha metodicamente as partes na mesa. O desenho se assemelhava à figura duma borboleta.

— Por que perdes tempo aqui, Amarilla? — perguntou o demônio. — Reclamo teus serviços.

— Amarilla! — gritou a musa. — Já te disse para não me chamares assim!

— Estás deprimida? Não tens bebido? Costumas ganhar peso quando deixas de beber.

— Vade retro! Não vês que estou ocupada com uma inspiração?

— Sabes que isto não vai a lugar algum. Não foste feita para este buraco, Amarilla. Escuta. Encontrei um candidato promissor. Quero que faças teu trabalho.

— Outro escritor? Não! Estou esgotada! Tenho espaço para poetas e talvez pintores, mas um escritor? Terás de me matar primeiro!

— Ouve-me, ouve-me. Prometo passar mais tempo contigo. Podemos tirar uma semana juntos no Tártaro.

— Sabes que odeio aquele lugar!

— Tu não sabes mentir, Amarilla. Sou o pai deste pecado, esqueceste? Pois bem. Sabes que nunca encontras tanta inspiração num só lugar. Da última vez, criamos Goethe!

— Deixa-me com minha paz. Cansei-me. Hei de me aposentar.

— Pensa bem nisso. Voltarei em um ano. Tens um ano para me dar um escritor.

E saiu tão rápido quanto entrou, deixando a musa num tumulto de pensamentos. Sua mente se dividiu em duas, uma parte invocando argumentos em favor do Diabo, a outra os refutando.

A deusa girou em círculos no seu castelo interior, voltando sempre àquelas memórias: as decepções, as traições, mas as alegrias também. Lembrou então seu verdadeiro nome.

O impasse cessou. Amarílis se ergueu resolvida a trabalhar uma vez mais. Não o faria por seu amado ou por qualquer razão pessoal, mas porque era sua natureza — lapidar artistas desinteressadamente.

Algo a esperava do lado fora do estabelecimento. A musa ajeitou o vestido e fechou a porta encardida do boteco. Notou o anjo de Deus vigiando-a do meio das árvores.

— Que fazes aqui, servo do Altíssimo? — exclamou.

Mas não obteve resposta. Grunhiu, fingindo-se indignada. Empinou o queixo e subiu aos ares, sobrevoando o cerrado por algumas horas antes de pousar na casa do escolhido.

— É preciso avaliar — murmurou. — A maioria está verde. A uns poucos, basta dobrar. Mas os melhores nascem quando quebrados; não posso deixar um pedacinho sequer.

E, com uma risadinha, meteu-se no quarto escuro por uma janela e examinou o sujeito na cama.

— Geraldo Montenegro. Tens nome de escritor. Os olhos são muito juntos, o nariz é pontudo demais, a boca miúda; em suma, tens um semblante feio. E apesar disso és noivo? Estás feliz em excesso, Geraldinho. Preciso te ajeitar antes de começarmos.

O pobre homem despertou. Atravessou a musa e andou até o armário. Esvaziou as gavetas, atirando as roupas ao chão, e encontrou um manuscrito velho debaixo duma pilha de cadernos. Leu-o meneando a cabeça, quase batendo os pés. Abriu o notebook, acessou um documento em branco e começou a esmurrar o teclado.

O resultado foi um parágrafo de trinta linhas com poucas vírgulas e uns cem erros de acentuação. Geraldo deu-se por satisfeito e voltou a deitar-se.

Relutante, Amarílis foi ao aparelho e percorreu o documento.

— Mentiroso de uma figa! Esse atordoado não escreve uma frase!

A musa se transformou em meio à penumbra do quarto. Seus cabelos se eriçaram, escureceram até se fundirem com as sombras e cobriram o rosto. Entre craques e creques, os braços se contorceram, as pernas se alongaram e a coluna se dobrou para frente. O estourar dum raio revelou a figura sinistra inclinada sobre a cama. Geraldo fazia caretas, atormentado por pesadelos de morte.

O monstro deslizou a mão sob o travesseiro e agarrou o celular. Num aplicativo de mensagens de texto, identificou o nome “Amor - Aninha”. Depois de esquadrinhar a conversa desde o primeiro dia, digitou, emulando o estilo de Geraldo:

“Sai da minha vida sua vaca arrombada!”

Passou à próxima fase, enviando o seguinte recado ao contato “Mãe”:

“Eu sempre te odiei. Espero que morra.”

Pela manhã, Geraldo acordou com cinquenta mensagens por responder e seu noivado arruinado. Para piorar, seus pais não queriam mais vê-lo e deixaram um desabafo no grupo da família. A mensagem foi de pessoa a pessoa até viralizar em outras redes sociais. O escândalo cresceu ao longo da madrugada e, por volta das seis, chegou ao seu chefe.

— Geraldo — disse, em áudio. — Como você está? Precisamos conversar. Eu te espero no meu escritório às oito horas.

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Uma publicação convidada por
Emmanuel Gonzaga
Sorocabano. Prefere histórias que apontem para a luz no fim de cada túnel.
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